A importância dos vários saberes para o mundo do trabalho

Autonomia, formação multiespecialista e busca pelo conhecimento são algumas das características exigidas pelo mundo do trabalho, avisam especialistas

Renato Pierote Silva, aluno do Cursinho da Poli, nunca teve dúvidas sobre qual será sua profissão: médico-cirurgião. Já seu colega Yago Pereira de Souza Arraes não tem tanta certeza assim: está cursando Tecnologia em Automação Industrial no Cefet, mas continua estudando no CP, pois pretende prestar engenharia na Universidade de São Paulo, no final do ano. A dúvida também incomoda a aluna Andressa Teixeira da Silva, que ainda não escolheu qual carreira seguir, tendendo a alguma na área da saúde ou da biologia.

Os alunos Renato Pierote Silva e Yago Pereira de Souza Arraes já decidiram para qual curso vão prestar vestibular

A verdade é que a grande maioria dos estudantes passa por essas angústias na hora de decidir para que curso prestar vestibulares. Segundo a edição 2010 do Guia do Estudante, da editora Abril, existem no Brasil mais de 200 cursos universitários, mostrando que o leque vai muito além dos clássicos cursos de Direito, Medicina ou Engenharia. Além disso, a escolha também envolve outros fatores: a pressão dos pais – que muitas vezes “sugerem” que os filhos se formem na profissão tradicional da família –, ou a escolha de um curso com o qual o estudante tenha muita afinidade, mas cujo retorno financeiro talvez venha a ser mais lento, por exemplo.

Tendências do mercado

De fato, a questão financeira é importante, mas será correto escolher uma profissão só por ela estar em evidência atualmente ou por oferecer maior empregabilidade? Segundo pesquisa realizada pelo Programa de Estudos do Futuro (Profuturo), ligado à Fundação Instituto de Administração (FIA), a próxima década pode ser promissora para carreiras ainda desconhecidas como gerente de eco-relações, gerente de marketing e-Commerce e geomicrobiologista.

Para o sociólogo José Pastore, os novos profissionais precisam ter em seu sangue o “vírus da curiosidade”

Em entrevista ao Vox deste mês de agosto, José Pastore, doutor honoris causa em ciência e Ph.D. em sociologia pela University of Wisconsin e especialista em mundo do trabalho, lembra que a atual fase do Brasil está propícia para os engenheiros, por conta da Copa do Mundo de 2014, dos Jogos Olímpicos de 2016 e da descoberta do pré--sal: “As grandes construções urbanas oferecerão muitos empregos diretos e mais ainda indiretos. O pré-sal demandará muitos profissionais que hoje estão em falta. A Petrobras estima que contratará mais de 10 mil engenheiros nos próximos 5 anos, e os que conhecem as técnicas da indústria petrolífera são raros. Hoje, os profissionais experientes em óleo e gás ganham R$ 30 mil por mês, e o salário inicial para jovens bem formados está em torno de R$ 7 mil mensais.”

Eventos como a Copa do Mundo ou o surgimento de novas tecnologias afetam o mundo do trabalho a pequeno, médio e longo prazo – em artigo publicado em seu site, Pastore dá o exemplo da profissão de bancário: antigamente, as ações bancárias eram feitas apenas presencialmente. Depois, vieram os caixas eletrônicos, que diminuíram a demanda nas agências, e agora é possível fazer quase qualquer serviço via internet. Ou seja, profissões podem aparecer ou desaparecer em pouco mais de uma década.

Já a aluna Andressa Teixeira da Silva está em dúvida entre a área da saúde e da biologia

“O fato de eu ainda não saber que carreira seguir já está me irritando, porque sempre me perguntei o que ia ser quando crescesse, mas agora eu já cresci e ainda não me decidi!”, diz, entre séria e divertida, a aluna Andressa Teixeira da Silva. A Jornada de Trajetórias Profissionais pode ajudar Andressa: realizada anualmente pelo Cursinho da Poli. reúne dezenas de profissionais para conversar com os alunos sobre sua carreira e experiência, tirando dúvidas e dando sugestões. Este ano, a JTP será no dia 29 de agosto.

Em vez de generalista, seja multiespecialista
Mas parece haver um consenso entre especialistas da área da educação e do mundo do trabalho: qualquer que seja a carreira escolhida, é essencial que o profissional busque uma formação ampla e evite se fechar numa única especialidade. Em seu livro Qual é a sua obra?1, o filósofo e educador Mario Sergio Cortella explica: “Hoje, no mundo do trabalho, fala-se menos na formação de um generalista e mais na formação de um multiespecialista. Não se trata apenas de uma diferença de linguagem. É menos uma pessoa que esteja voltada para uma visão apenas geral das coisas, mas aquela que ganha autonomia para construir uma nova competência. Isto é, a clássica expressão usada pelo filósofo norte-americano que trabalhou na área de educação, John Dewey, que nos primórdios do século XX dizia: ‘É preciso aprender a aprender’. Aquele que aprende a aprender ganha autonomia. Por isso não se pode atuar no campo empresarial apenas para a formação estratégica, porque ela trabalha num prazo mais dilatado. Também não se pode ser imediatista e trabalhar só para a semana seguinte, com uma formação específica e, portanto, focada e limitada. É preciso equilibrar as duas coisas.”

“Hoje, no mundo do trabalho, fala-se menos na formação de um generalista e mais na formação de um multiespecialista”, avisa o filósofo e educador Mario Sergio Cortella

Evidentemente, o ensino médio e superior precisam se adequar a esse novo mundo, que exige novas habilidades e competências, e dar aos estudantes muito mais do que as informações técnicas e a preparação para uma profissão. É preciso tornar o estudante um cidadão, como explica o economista e sociólogo Luiz Gonzaga de Mello Belluzzo2: “Não se trata apenas de abastecer adequadamente o mercado de trabalho. É importante, sim, formar mais técnicos e engenheiros, carreiras desestimuladas pelo baixo crescimento das últimas décadas. Mas, antes de tudo, trata-se de conter a degradação que está ocorrendo em todos os níveis da educação no Brasil: a especialização precoce, em detrimento da formação cultural mais ampla e mais sólida, capaz de permitir a autonomia e a fruição da liberdade pelo cidadão brasileiro. Pois não se forma um bom engenheiro se o profissional não tem noção do país em que vive, do mundo em que sobrevive. Na verdade está-se produzindo hoje uma geração de idiots savants [sábios idiotas], especializados no seu ramo de atividade, mas sem a menor noção do mundo onde vivem.”

O “vírus da curiosidade”

Como se pode ver, a autonomia é uma das qualidades essenciais neste novo milênio. Além de adquirir conhecimentos e saber argumentar, os novos profissionais precisam ter iniciativa e saber trabalhar em equipe. Para concluir, o sociólogo José Pastore dá algumas dicas para os estudantes desenvolverem as qualidades e cumprirem as exigências do mundo do trabalho: “O essencial é ser capaz; é ter uma boa formação; é ter conhecimentos raros; é preciso ter curiosidade para descobrir alguma coisa nova o tempo todo; é preciso ter no sangue o ‘vírus da curiosidade’. Se você não tem, inocule--se. E como fazer isso? Não basta ler o que o professor recomenda. É preciso ler pelo menos o dobro do que ele pede. É preciso se informar constantemente. O ‘vírus da curiosidade’ é o dínamo do conhecimento. É preciso ter obsessão por apreender continuamente. Para profissionais bem formados, não faltarão oportunidades de trabalho – em qualquer profissão.”


1 Cortella, Mario Sergio. Qual é a sua obra? 9. ed. Petrópolis, RJ: Visão, 2010.

2 Em artigo publicado na revista Cult, edição 148, julho de 2010.

 

 

topo

Cursinho da Poli 20 Anosß

Av. Ermano Marchetti, 576 (Lapa), R. Desembargador Bandeira de Mello, 468 (Sto. Amaro), R. Sabbado D’Angelo, 2040 (Itaquera)
São Paulo (SP) – Telefone : (11) 2145-7654

Redação: Leonardo Vinícius Jorge - Produção: Helena Lo Bello - Fábrica das Artes
E-mail: cursinho@cursinhodapoli.org.br - Site: www.cursinhodapoli.org.br