Maurício, orientando seus alunos na palestra realizada na unidade Lapa do Cursinho da Poli.
Maurício Vaz de Oliveira é um exemplo de que é possível, sim, lutar pela melhoria da educação de nosso país. Após se formar em Filosofia, Maurício se tornou professor na escola onde havia estudado até o ensino fundamental. Preocupado com o futuro de seus alunos, criou projetos para melhorar a auto-estima e incentivar a luta dos jovens por uma vaga nas universidades públicas.
Então, para reforçar esse incentivo, ingressou junto com alguns de seus alunos no Cursinho da Poli, onde já havia sido aluno, anos antes. “Acabei me matriculando na esperança de que isso fosse estimulá-los, para poder ajudá-los a acompanhar as aulas. Os alunos acharam engraçado, os professores não entendiam e minha esposa me acha maluco”, diverte-se. Mas o resultado está sendo alcançado: quatro de seus alunos estão na segunda fase da Fuvest.
O respeito que Maurício alcançou entre seus alunos é visível: no dia 15 de novembro, manhã de um feriado ensolarado, conseguiu levar, de trem, mais de 200 estudantes de Francisco Morato até a unidade Lapa do CP para assistirem a uma palestra sobre vestibulares. Conheça mais sobre esse guerreiro da educação na entrevista abaixo.
Por que decidiu trabalhar com educação?
Em 2000, eu estava concluindo a faculdade de Filosofia e a maior possibilidade de emprego era em educação, atuando como professor. Aos 19 anos, eu ainda carregava anseios de reconhecimento social e familiar, e achava que dar aula não era algo sobre o que eu pudesse “contar muita vantagem”. Sobretudo de Filosofia, área pela qual eu já era apaixonado, mas tinha plena noção de que a maioria das pessoas não fazia idéia do que era. Nesse contexto, um dia vi um panfleto de divulgação do CP e decidi fazer algo que as pessoas gostassem, como Engenharia ou algo tradicional. Passei para a segunda fase da Unicamp, mas, no dia da prova, esqueci o atestado de inscrição e não pude entrar. Eu estava muito cansado para começar tudo de novo. Foi quando decidi levar o magistério adiante até escolher o que fazer da vida. Na primeira aula, percebi o que queria fazer para sempre.
Você é professor da mesma escola pública em que estudou (Escola Estadual Prof. Rogério Levorin, em Francisco Morato). Qual a diferença entre a escola de hoje e a de "ontem"?
Correndo o sério risco de ser arrogante, a grande diferença está no grupo de professores. Eu percebo que há um empenho maior em fazer as coisas acontecerem. Também percebo uma quantidade maior de alunos preocupados com o futuro. Minha geração não teve alguém em quem pudéssemos nos inspirar para prosseguir. Hoje, eu busco de todas as formas fazer com que os alunos se sintam parte de algo especial, percebam-se agentes de um processo muito maior de transformação. É algo apaixonante. Os frutos desse esforço são os mais de 100 alunos encaminhados às faculdades, sendo que pelo menos 20 optaram pela Educação. Porém, tenho consciência de que nossa escola não serve de parâmetro de comparação e que ainda temos uma enorme gama de problemas, como gravidez na adolescência, álcool, baixa auto-estima de alunos e de professores.
Agora, na posição de professor, qual a maior dificuldade de ensino na escola pública? Quais são os percalços pelos quais passa o professor?
A péssima remuneração. Todos os demais problemas são oriundos desse. Temos que nos desdobrar em duas, três redes, em jornadas que lembram o período da Revolução Industrial no século XVIII. Não sobram recursos e tempo para a constante atualização. O Estado fica na dependência de iniciativas pessoais para que a melhora ocorra. Com o tempo, o resultado são professores desacreditados, incapazes de mudar a própria vida, diga-se lá a dos alunos. E a desmotivação acaba contaminando os novos professores. Hoje, percebo com clareza que a minha formação fora desse círculo vicioso, tanto no colégio interno quanto no Cursinho da Poli e na faculdade de Filosofia, me deu a chance de perceber elementos capazes de buscar reconhecimento dentro de princípios mais fortes do que as tentações do sucesso pelo consumo.
Fale um pouco sobre seu projeto na escola em que leciona, que tem como missão incentivar os alunos a buscarem as universidades públicas.
Os alunos do professor Maurício compareceram no Cursinho, em plena manhã de feriado ensolarado, para assistir à palestra sobre vestibulares.
Em 2005, iniciei um projeto aqui na escola chamado Viajando na Filosofia, que pretendia levar os alunos do ensino médio a aumentar suas habilidades pessoais e autoconfiança através de vários eventos capazes de colocá-los em situações de aprendizagem, interatividade, iniciativa, cooperação e empreendedorismo, tendo como arremate a ida desse aluno para a faculdade. Desde então, têm acontecido muitas histórias incríveis: tivemos que enfrentar a resistência de professores, outras vezes da direção, falta de verba, mas todas as dificuldades iam ao encontro da idéia central do projeto: “Se fosse fácil, não tinha graça”. Com o tempo, alguns ex-alunos voltaram para me ajudar, alguns já como professores, e a atual etapa de amadurecimento era conseguir fazer com que as próximas gerações passassem a buscar as universidades públicas. Este ano, convenci alguns alunos a se prepararem de forma mais sistemática e aconselhei-os a buscar o Cursinho da Poli, por já conhecer tudo o que ele pode fazer pelas pessoas.
Então, você acabou se matriculando junto com os alunos e passou a assistir às aulas. Como foi voltar a ser aluno?
Acabei me matriculando na esperança de que isso fosse estimulá-los, para poder ajudá-los a acompanhar as aulas. Além disso, adoro estudar. Os alunos acharam engraçado, os professores não entendiam e minha esposa me acha maluco. Foi muito interessante escutar de perto os pensamentos dos vestibulandos. Eu pedi para que os meus alunos mantivessem segredo sobre a minha identidade, queria poder sentir a experiência de aluno com detalhes, e posso dizer que foi interessante até mesmo pelo fato de poder analisar as aulas e perceber de que modo eu poderia melhorar as minhas e em que aspectos eu já estava acertando. Foi preciso ter muita humildade: depois de um tempo, mesmo que não assumamos, temos a tendência de agir como se não precisássemos mais aprender. Resolvi dar um tempinho em Kant, Sartre e Pascal e relembrar minha paixão pelas exatas.
E qual o resultado dessa experiência?
O melhor possível: quatro alunos foram para a segunda fase, todos com chances muito boas. Os que não foram aprovados não pensam em desistir. E para o próximo ano existe uma previsão de que muitos alunos se matricularão no Cursinho, mesmo alguns ainda estando no 1º ano do ensino médio.
No dia 15 de novembro, em pleno sábado ensolarado de feriado, você conseguiu trazer mais de 200 alunos dos três anos do ensino médio à unidade Lapa do Cursinho da Poli, para que eles pudessem assistir a uma palestra sobre vestibulares. Considerando que é cada vez mais freqüente assistirmos a noticiários em que alunos desrespeitam e até agridem seus professores, de que forma você conquistou e mantém esse respeito por parte dos estudantes?
Além das aulas de Filosofia, que me dão a oportunidade de discutir assuntos inerentes ao ser humano, acredito que o meu desejo profundo de melhorar a vida de cada um deles seja sentido por cada um. Além disso, ao longo desses anos, à medida que fui amadurecendo, ganhei o respeito da comunidade. Posso chamar a quase todos pelo nome e, quando eles chegam à minha série, já ouviram falar de mim por colegas, primos ou irmãos. O restante é muito esforço, algum talento e carisma.
O número de inscritos na Fuvest deste ano foi o menor em 10 anos. Na prova do Pasusp, 84% faltaram, muitos sem nem conhecer o programa. Você sente que o aluno de escola pública não é incentivado a tentar entrar nas universidades estaduais e federais?
Sem dúvida. E isto acontece de vários modos. Desde a própria família, que o insere no mercado de trabalho ainda muito novo, passando pelo professorado, que não percebe o poder de transformação que possui e, por isso, não consegue se organizar, chegando finalmente ao poder público, que, nos últimos tempos, tem dado prioridade aos programas de bolsa em instituições privadas, sem contar com elementos históricos e culturais extremamente relevantes.
Em oposição a esses assuntos negativos sobre a escola pública, sua atitude mostra que há pessoas lutando pela melhoria do ensino direcionado aos jovens. Que outros exemplos você poderia citar?
Eu não tenho dúvidas de que ainda existem vários professores que não dão a mínima para as estatísticas e que, todos os dias, mesmo tendo mais motivos para desistir do que para continuar, saem de suas casas e vão para as salas de aula fazer o melhor. Em 2003, participei de um grupo de professores que fundou um cursinho pré-vestibular chamado CRD (Cursinho René Descartes). Acabamos fechando dois anos depois por falta de verba, mas alcançamos resultados incríveis, chegamos a ter 200 alunos. Aqui [em Francisco Morato], uma das professoras eventuais montou uma escola de dança que atende a comunidade local e faz um trabalho espetacular.
As informações contidas nas respostas do entrevistado não traduzem necessariamente a opinião do Vox.
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Redação: Leonardo Vinícius Jorge - Design: Brasil Multimídia
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