Aconteceu

Teatro, tabus e 1968 foram alguns dos assuntos da palestra


Em maio de 1968, barricadas foram levantadas, imposições foram questionadas e alguns tabus, quebrados. No dia 10 de junho de 2008, esse espírito fez uma visita ao CP, que recebeu uma lenda viva do teatro: Zé Celso Martinez Corrêa. Ao propor que todos os presentes se sentassem em círculo, empilhando as cadeiras nos cantos da sala de aula, e ao tratar de assuntos polêmicos, como nudez no teatro, sexo, drogas e a indústria armamentista, Zé Celso apresentou mais do que uma

palestra, foi uma oficina sobre a vida!

Já no início do encontro foi possível perceber que o evento seria diferente de tudo o que os alunos estavam acostumados a ver: ao invés de se apresentar, Zé Celso, sem explicações, começou a cantar a música “Vento Forte pra um Papagaio Subir” (título homônimo de uma de suas peças), variando na entonação, ora cantando baixinho, ora mais alto. Minutos depois, sem perceberem, todos estavam cantando junto com ele.

Pronto: a interação Zé Celso-público estabelecera-se.

Terminada a canção, o gelo estava quebrado e Zé Celso começou a conversar com os alunos sobre o Teatro Oficina, seu projeto de construção da universidade antropofágica e o falho sistema penitenciário – que, além de não ressocializar, piora a condição psicológica do detento. Falava de tudo isso sempre articulando todos os assuntos. Aos 71 anos de idade, sempre coerente com sua filosofia de interação, o diretor abandonou o tablado frontal da sala para andar por entre os alunos, fazê-los cantar, dançar e conhecer novas técnicas de respiração.


TABUS


Como era de se esperar, não demorou muito para que os tabus e temas polêmicos entrassem na pauta. “Eu não exploro o nudismo. Nascemos nus, tomamos banho nus, nos amamos nus”, explicou assim a um aluno o uso de uma de suas marcas nas peças que dirige. Sobre drogas, deixou claro seu posicionamento, ao dizer ser a favor da liberação, desde que controlada pelo Ministério da Saúde, afinal, a proibição cria o tráfico, que gera a violência: “Após a Guerra Fria, a indústria armamentista precisou criar uma nova guerra para continuar vendendo, assim como também acontece com a atual 'Guerra ao Terror' ”.

A violência é o que mais incomoda Zé Celso e, diante dela, ele questiona as formas como a sociedade tenta se proteger – caso das grades cada vez mais freqüentes nas janelas das casas.

Z Celso Martinez Corra no Cursinho da Poli

“A cidade se tornou um grande cativeiro”, lamenta. E se pergunta por que a palavra amor não está presente na bandeira do Brasil, se a inscrição “Ordem e Progresso” é baseada no lema do positivista francês Auguste Comte: O Amor por princípio, a Ordem por base, o Progresso por fim.


“1968 não foi uma data, foi um espírito, que pode durar para sempre”, disse Zé Celso após propor que o clima daquele ano revolucionário entrasse na sala de aula. A ordem pré-estabelecida dos assentos foi abandonada, as cadeiras ficaram amontoadas nos cantos da sala e todos os alunos se sentaram em círculo no chão, com o mestre ao centro. Técnicas de respiração pronunciando vogais, ditas de forma cantada e com risadas, mostraram aos participantes novas formas de relaxamento.

Bacantes

Z Celso Martinez Corra no Cursinho da Poli


O tabu sexual voltou a ser assunto após a exibição, em vídeo, de parte da peça Bacantes, dirigida por Zé Celso, em que os atores se apresentam seminus e acontece uma cena de orgia. Ao ser perguntado por um aluno se a interação do público com os artistas, envolvendo os atos polêmicos, não poderia gerar abusos ou criar um mal-estar, o diretor explica: “O teatro é o lugar da celebração do amor, inclusive do amor sensorial. O teatro é como o carnaval, e no carnaval vale tudo”.

Num piscar de olhos, as três horas de palestra/oficina abordaram ainda a mitologia grega, o filme Tropa de Elite, a contracultura, os alucinógenos, Barack Obama, Sílvio Santos... Depois da despedida de Zé Celso, a cortina se fechou e o palco voltou a ser a sala de aula. Mas a experiência será inesquecível.

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