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Palestra lançou um pouco de luz sobre assuntos obscuros da ditadura militar
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No mundo, há dois tipos de pessoas: as que assistem à História, e as que fazem parte dela. Frei Betto, que esteve presente no Cursinho da Poli (CP) no dia 03 de outubro de 2007, definitivamente, faz parte da história do Brasil. Frade dominicano nos "anos de chumbo", Carlos Alberto Libânio Christo desde os 25 anos de idade já estava envolvido em causas sociais e no movimento estudantil. Fez parte do combate à ditadura militar, foi preso e torturado. Em 2003, ocupou a função de Assessor Especial do presidente Lula, e foi um dos organizadores do Fome Zero. Deixou o cargo quando começou a discordar da direção que o programa assumia.
No encontro realizado no dia 03 de outubro, os alunos do CP puderam tirar dúvidas sobre diversos assuntos, como a história da ditadura no Brasil, o mundo globalizado, a América Latina de Hugo Chávez, o governo Lula... |
Logo no começo da palestra, frei Betto fez questão de lembrar que o Brasil é um país "desmemoriado" e que as versões da História contadas até aqui foram sempre da elite. Como exemplo, citou os bandeirantes, que, se hoje dão nome às rodovias, foram outrora uma espécie de versão barroca do esquadrão da morte. Os alunos do CP ficaram boquiabertos ao saber que Fernão Dias, um festejado bandeirante, matou o próprio filho em uma expedição, e também quando frei Betto explicou que o nome da revolta Inconfidência Mineira significa “deduragem mineira”, apenas mais uma forma de a elite ofender a revolta do povo...
Para os alunos se prepararem para o encontro, no dia 30 de setembro houve um cine-debate com o filme Batismo de sangue, longa-metragem dirigido por Helvécio Ratton, baseado no livro homônimo escrito por frei Betto. A narrativa mostra a luta dos frades contra a repressão militar e os "fantasmas" que atormentaram frei Tito (interpretado por Caio Blat), levando-o ao suicídio. |
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Ditadura
Apesar de o tema principal da palestra ser bem difícil - a ditadura vivida pelos brasileiros -, frei Betto conseguiu provocar muitos risos entre os mais de 200 alunos presentes. Zombou da coincidência de o golpe militar de 1964 começar justamente em 1º de abril (dia da mentira) e de, para evitar achincalhe, registrar-se oficialmente como iniciado no dia 31 de março. O palestrante falou da importância e da força que o movimento estudantil teve na ocasião, e da pressão dos militares para desestruturar a UNE. "A defesa armada foi o último dos recursos", justificou o frei, contando que uma de suas funções era capturar ambulâncias para socorrer os feridos em combate. |
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Os alunos também se surpreenderam quando frei Betto revelou que já esteve preso com Dilma Rousseff, hoje ministra da Casa Civil, que, à época, foi presa por assaltos a banco que visavam financiar o movimento estudantil. O palestrante lamentou, aliás, o fato de o governo Lula ter tantos parlamentares que já foram presos políticos e, ainda assim, os arquivos da ditadura continuarem fechados. Mas elogiou recente publicação do governo em que se apresenta um relatório responsabilizando as Forças Armadas pelo desaparecimento e a morte de centenas de pessoas. E avisou que a ditadura, assim como o holocausto da segunda guerra mundial, deve ser lembrada para jamais se repetir.
O bom humor foi a marca registrada da palestra, como pôde ser visto quando frei Betto ironizou o tempo a mais que ficou preso. Após quatro anos em reclusão, foi condenado a apenas dois. “Posso roubar uma bicicleta, porque estou com crédito”, brincou. Ele explicou, ainda, como fazia para driblar os censores quando trabalhava em jornal: colocava as notícias políticas em cadernos de esporte ou nos balões dos quadrinhos. Os alunos adoraram a estratégia.
Frei Tito
A triste história de frei Tito, amigo de frei Betto, contada no filme Batismo de Sangue, também foi tratada na palestra. Frei Betto elogiou a forma realista como o filme mostrou as torturas, mas lembrou que os minutos de agressão do filme foram dias e dias para frei Tito, que sofreu no pau de arara levando choques na boca, aos quais o delegado Fleury chamava sarcasticamente de “hóstia”.
Frei Betto disse que compreende o suicídio do amigo como seu último ato de lucidez. Frei Tito, após a tortura, jamais se recuperou do trauma e constantemente delirava, via seus torturadores, achava que estava sendo perseguido e foi, então, para o exílio na França. Lá, enforcou-se numa árvore, deixando escrita uma justificativa para seu ato de desespero: “É preferível morrer do que perder a vida”.
Ontem e hoje |
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Outros assuntos também estiveram presentes na palestra, como as diferenças entre a juventude de sua época e os jovens de hoje. Frei Betto diz que foi um privilégio ter 20 anos na década de 1960, época de diversas revoluções e influências como as de Che Guevara, da Revolução Cubana, dos Beatles, a vitória dos soviéticos sobre os norte-americanos na corrida espacial e a liberação sexual. “A minha juventude queria, no mínimo, mudar o mundo”, disse com orgulho.
Criticou o neoliberalismo que domina o mundo atual: “As pessoas podem mudar a cor do cabelo, mas não podem mudar a sociedade. Podem ter várias opções de produtos na prateleira, mas não podem ter várias opções sociais”.
Diz ter ficado feliz por pessoas poderosas terem perdido dinheiro com a recente crise financeira causada pela instabilidade do setor imobiliário nos |
Estados Unidos, e torce para o partido Republicano ganhar as eleições nos EUA. No que diz respeito às atuais tecnologias, elogia a internet por abrir caminhos para novas formas de comunicação.
O socialismo
“É claro que ainda acredito no socialismo. O próprio capitalismo fracassou antes do socialismo. Basta ver todas as injustiças sociais: vivemos uma loteria genética”, declarou frei Betto ao responder à pergunta de um aluno. Diz admirar Cuba, onde todo o ensino é gratuito, assim como acontece com o sistema de saúde. E citou a frase que fica estampada na saída do aeroporto de Havana: "Hoje à noite, 500 milhões de crianças vão dormir na rua. Nenhuma delas é cubana".
O palestrante também falou do polêmico presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Para o frei, a mídia distorce a imagem de Chávez, que combate uma elite “bem pior do que a do Brasil”. Frei Betto aconselha os jovens a conhecer pessoalmente os movimentos populares, e a fazer trabalhos voluntários, engajando-se – pois só assim escapam de conhecê-los apenas pelo prisma da grande mídia.
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Governo Lula
Frei Betto ocupou o cargo de Assessor Especial do presidente Lula em 2003 e foi um dos organizadores do Fome Zero, mas desligou-se da função quando achou que o programa deixava de ser social e se tornava eleitoreiro. Diz que ficou chocado ao saber das quantias de dinheiro envolvidas no caso que ficou conhecido como mensalão, já que ele tinha que trabalhar com pouquíssimos recursos financeiros.
Criticou a ausência das reformas agrária, política e tributária, que deveriam ter sido feitas logo nos primeiros anos do governo e alfinetou Renan Calheiros ao dizer que as pessoas não mudam no poder, apenas se revelam. Ele lembrou da paródia realizada pelo grupo humorístico Casseta e Planeta, na qual o sósia do presidente do Senado não desgruda da cadeira nem para ir ao banheiro. |
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Mas o palestrante também enumerou pontos positivos da atual gestão, como o controle da inflação, a política externa com países africanos e o aumento da renda da classe mais pobre dos brasileiros. Frei Betto encerrou sua palestra de forma esperançosa, dizendo que o Brasil tem tudo para dar certo. Mas, com uma metáfora, lembrou os jovens de que é preciso se engajar politicamente e sempre pressionar os líderes por melhorias sociais: “o governo é como feijão: só funciona na panela de pressão”.
Confira a entrevista feita com o Frei para Boletim VOX Nº 3
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