Em sua terceira visita ao Cursinho da Poli, o lama Michel bateu um papo com os alunos e ensinou técnicas de concentração e relaxamento
No dia 13 de abril de 2010, o jovem lama brasileiro Michel Rinpoche esteve pela terceira vez no Cursinho da Poli para conversar e emocionar os alunos num bate-papo sobre ansiedade, concentração, cultura de paz e a filosofia budista. Como é característico em suas palestras, o lama Michel alternou momentos de descontração e bom humor com muita seriedade, desta vez mantendo o foco nesta questão: como desenvolver uma vida significativa?
Ao sentir o clima de “sala de aula”, com os jovens sentados em suas carteiras e de apostila na mão, o monge relembrou os momentos de criança, quando ainda estava na escola e perguntava por que estudar matemática, português ou química, por exemplo. A resposta que obtinha dos adultos era que o estudo o levaria a uma profissão de sucesso, o que renderia dinheiro e uma vida feliz. No entanto, o lama Michel observara, ainda criança, que mesmo os adultos com “sucesso” profissional e financeiro não estavam felizes, não estavam satisfeitos.
Inspirado em seu mestre lama Gangchen, ele decidiu, na época aos 12 anos de idade, tornar-se monge e passou a morar no Monastério de Será Me, na Índia, para estudar a filosofia budista tibetana. Uma das coisas que aprendeu sobre a infelicidade que acomete grande parte das pessoas ao redor do mundo é que ela está na errônea tentativa de se alcançar a “utopia materialista” – termo que usou para quem busca a felicidade material e sensorial. Para o lama Michel, são três as causas da insatisfação: a ignorância, o desejo e a raiva.
Para ilustrar a ignorância (que pode ser dividida em “não saber” e “saber errado”), o monge usou como exemplo a história do homem que ficou bravo com o colega índio por ele ter pendurado numa árvore o relógio dado de presente; o índio, por sua vez, também não gostou quando viu seu arco e flecha sendo usados como adorno na parede da casa do homem branco. “Ambos estavam errados por achar que apenas o outro estava errado”, comentou.
Quanto ao desejo, o lama explicou que acontecem problemas quando projetamos a felicidade em algum lugar ou alguma coisa que não podemos sustentar por muito tempo. Ele também lembrou que o desejo é sempre gradual e que, se a pessoa for dominada pelo desejo (material ou sensorial), precisará cada vez de mais para satisfazer-se cada vez menos. Como exemplo, o palestrante relacionou o copo d’água e a sede.
A raiva também é causa da infelicidade, segundo o monge, já que projetamos a culpa nos outros quando estamos encolerizados. “Sempre achamos que temos a razão, quando estamos com raiva, e podemos até machucar as pessoas que amamos”, disse o lama Michel. E o sentimento de raiva é tão forte que afeta não apenas nossa mente, mas também o corpo, já que a tensão pode se acumular e gerar males à saúde. Aliás, o palestrante lembrou que nosso corpo está sempre em comunicação com nosso estado de espírito, uma vez que ele reflete o que sentimos: quando ansiosos, movimentamos as pernas; quando estamos com medo, sentimos arrepio; quando estamos com raiva, os músculos ficam tensos etc.
Para os jovens que estão na fase de estudos e preparação para os vestibulares, o lama Michel lembrou que todo conhecimento amplia a realidade, mesmo quando, aparentemente, parece supérfluo. “Quanto maior o conhecimento, maiores serão as oportunidades”. Como gosta de sempre citar exemplos, o monge lembrou que Steve Jobs, criador dos computadores Apple, teria aproveitado as aparentemente inúteis aulas de caligrafia na universidade para complementar, anos mais tarde, as centenas de tipos de fontes dos programas de editores de texto.
No final da palestra, o lama Michel ensinou uma técnica
de meditação que pode ser muito útil no dia a dia,
e tirou dúvidas dos alunos sobre o budismo.
No final da palestra, o lama Michel ensinou uma técnica de meditação que pode ser muito útil no dia a dia, e tirou dúvidas dos alunos sobre o budismo. “É uma filosofia de vida, não uma religião, pois não aborda a existência ou a não-existência de Deus, focando exclusivamente no homem e em seus sofrimentos”. O monge aproveitou para explicar a simbologia de suas vestimentas, como os seis metros de comprimento de um dos lados, que representam as seis qualidades necessárias em um lama (moralidade, generosidade, paciência, esforço, conhecimento e sabedoria), o recorte no formato de uma orelha de elefante (para representar a memória) e as dobras para a frente e para trás, simbolizando as qualidades e defeitos de todos os seres humanos.
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