Palestra com o Prof. Dr. Antônio Carlos Mazzeo, do Depto. de Ciências Políticas e Econômicas da UNESP
Houve um ano em que jovens de diversas regiões do planeta mobilizaram-se para mudar o mundo. Costumes foram questionados e novas realidades foram propostas por meio de protestos, barricadas, diversos enfrentamentos contra a polícia, a luta armada... Foi assim que 1968 entrou para a história e, para que os alunos do Cursinho da Poli conhecessem um pouco mais sobre esse período revolucionário, o Prof. Dr. Antônio Carlos Mazzeo, do Departamento de Ciências Políticas e Econômicas da Unesp (Universidade Estadual Paulista), foi convidado a ministrar uma palestra sobre o assunto na unidade Lapa do CP. O encontro aconteceu no dia 14 de maio de 2008.
"É um tema caro para mim, pois eu estava lá, nas barricadas do movimento estudantil", explicou o professor Mazzeo, que aos 16 anos já era membro do Partido Comunista. Sempre muito ativo, fez parte do movimento estudantil e dos protestos que exigiam mais vagas nas universidades públicas. Foi preso aos 25 anos, interrogado pelo Dops - a polícia da ditadura militar -, e passou por países da América Latina, como Chile e Cuba. É graduado em Ciências Políticas e Sociais pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, mestre em Sociologia pela Universidade de São Paulo e doutor em História Econômica, também pela USP, além de ter feito pós-doutorado em Filosofia Política na Terza Università di Roma, na Itália, e ser livre-docente em Ciência Política pela Universidade Estadual Paulista.
Mazzeo abriu a palestra contextualizando a situação social em que se encontravam o Brasil e o mundo em 1968. Além do crescimento do poder militar em nosso país, no plano internacional havia a guerra do Vietnã, o difícil processo de reconstrução da Europa do pós-guerra e o clima tenso da Guerra Fria. Nos Estados Unidos, líderes negros como Martin Luther King lutavam por condições de igualdade racial, Cuba passava por uma revolução social radical, e a morte de Che Guevara comovia grande parte da população no mundo todo. Os Beatles e o movimento hippie eram símbolos de paz, liberação sexual, experimentações variadas (como de certas drogas)... Até que o protesto de estudantes universitários na França ganhou apoio de diferentes instâncias da sociedade e acabou marcando uma virada, sendo o estopim de uma nova era.
Movimentos estudantis e utopias
"Não concordo quando leio nos jornais: '1968 recuperou a utopia'. Grande parte das reivindicações não era utópica, mas real", contesta o professor, que se auto-intitula um "velho comunista" e não acredita que o capitalismo seja a melhor saída para os homens. Mazzeo brincou, dizendo que na sua geração todo jovem era um "Lênin" em potencial, e alguns eram "anti-capitalistas românticos", ou seja, eram contra o capitalismo, mas não sabiam exatamente o que queriam...
Respondendo à dúvida de uma aluna, Mazzeo explicou que o movimento estudantil formado em São Paulo não pretendia tomar o poder, mas solidarizar-se com a classe operária. E apontou conquistas realizadas pelos jovens estudantes de todo o mundo, como a criação dos seminários, sistema de ensino em que os próprios alunos ensinam aos colegas conteúdos que estudaram, revendo a exclusividade do professor como fonte do conhecimento. Embora tratasse de assuntos graves, seu bom humor deu o tom da palestra, como, por exemplo, quando contou que numa reunião recente com a coordenação da Unesp, onde trabalha, questionaram-no sobre seu eventual apoio à ação dos estudantes que tomaram a reitoria da universidade; ele afirmou que sim, apoiara, e que já havia tomado a reitoria em outras universidades também, para surpresa de muitos colegas.
Milhares de questões
Mazzeo lembrou a importância da arte no processo de difusão das idéias revolucionárias da geração de 68 e citou como exemplo John Lennon, líder dos Beatles, que, de um simples roqueiro, foi se transformando em ativista social. O professor se pergunta se realmente vivemos, hoje, uma democracia, já que os grandes meios de comunicação estão sob controle de poucas e poderosas famílias ou grupos corporativos. Ilustrou essa extrema concentração de poder com uma recente experiência por que passou no Rio de Janeiro, onde foi dar uma palestra: o clube que o recebeu era extremamente luxuoso e ficava num bairro onde havia uma pobreza que ele jamais vira antes.
A enorme quantidade de perguntas que o professor teve de responder comprovou o interesse dos alunos pelo assunto: as dúvidas abordaram desde o governo FHC, passando por ditadura militar, o atual movimento estudantil e a situação na Venezuela, até questões sobre Che Guevara e Karl Marx. E, antes de se despedir, Mazzeo deu seu recado aos futuros universitários: "Vocês são o futuro. Vocês têm responsabilidade e compromisso, não apenas com vocês mesmos, mas com o país".
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